Minimalismo: Tudo que você precisa saber sobre a nova forma de se relacionar com o dinheiro e os bens materiais

Tempo de leitura: 16 minutos

Nos últimos três anos eu dividi meu tempo em três cidades diferentes, e apesar de passar a maior parte em uma delas, ainda havia sentido em ter algumas coisas (roupas, livros, produtos de higiene…) nas outras duas.

Há dois meses eu me estabeleci definitivamente em um só lugar, e decidi trazer a maior parte do que eu tinha pra cá, o que resultou em uma quantidade de coisas muito além do que eu preciso, mas que – por usar constantemente – eu ainda me sinto apegado.

Não me considero alguém que acumula muitas posses, até me rendi ao Kindle para diminuir a quantidade de livros que se acumulavam em toda parte, mas com essa mudança, estou tendo que me esforçar mais para manter uma filosofia em que eu, pessoalmente, acredito muito – e que cada vez mais se torna uma tendência pelo mundo: o minimalismo.

Antes que você desista desse post, achando que eu vou falar sobre viajar o mundo levando apenas o que cabe em uma mochila, o minimalismo não é exatamente sobre isso!

Minimalismo é sobre ter as coisas que trazem algum valor real para a sua vida, porque são úteis, bonitas, te fazem lembrar de alguém importante… não apenas porque são coisas que você um dia comprou e agora acha que não pode se desfazer.

A lógica do acúmulo

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Antes de explorar o que é minimalismo, vamos dar um passo atrás, para entender porque esse pensamento surgiu e ganhou força, começando pelo “anti-minimalismo”, ou a lógica do acúmulo.

Se você assiste TV, em apenas uma hora de novela mais de vinte anúncios diferentes são distribuídos entre os intervalos – sem falar nas inserções de produtos dentro da própria novela.

Na internet, pulamos anúncios antes dos vídeos no Youtube, vemos banners em praticamente qualquer site, e encontramos publicidade que parece ser apenas mais um conteúdo no Google, Facebook, Instagram…

Não que pagar para ter seu produto, serviço ou mensagem exposta em algum meio de comunicação seja algo errado. O problema é que tamanha quantidade de publicidade cria um ambiente centrado em uma única palavra: comprar.

Você precisa comprar um fidget spinner, ele é a coisa mais legal que existe (mesmo que ele tenha sido inventado em 1993 e ninguém nunca ouviu falar)! Dois meses, você não brinca mais com ele, mas deixa guardado em alguma gaveta.

Talvez isso ainda não tenha acontecido, mas vai acontecer. Foi esse o destino que quase todo mundo deu às pulseiras do equilíbrio, às calças de joelho rasgado, aos brinquedos da infância, e o Pokémon Go só não está nessa mesma gaveta porque é um aplicativo.

As empresas do país, juntas, gastam – literalmente – mais de R$ 10 bilhões por mês em publicidade, e elas com certeza não fazem isso de brincadeira, para perder dinheiro.

Esses anúncios, normalmente, não exploram qualidades do produto em si, elas atingem as emoções de quem os vê; a mensagem é: ou você tem um desses, ou as pessoas vão te excluir.

Podemos achar que só os mais jovens acreditem nesse tipo de mensagem, mas essa ideia serve para qualquer idade – ninguém quer ser o isolado onde trabalha, até porque isso pode afetar a própria carreira.

Então compramos, e que venha a próxima moda que “você precisa ter, todo mundo tem!” mas que na verdade, quase ninguém tem logo no começo.

Grrr…

Minimalismo, a habilidade de comprar (e manter) conscientemente

Eu falei no começo que o minimalismo é uma filosofia, mas na minha opinião ele também pode ser visto como uma habilidade – de comprar e manter as coisas conscientemente, pelo valor real que elas têm para você, e não porque 483 anúncios te convenceram disso.

Não é sobre se livrar de tudo e viver numa casa de dois cômodos, ou colocar o que couber numa mochila e viajar o mundo deixando o resto para trás, é sobre encontrar e manter apenas o que tem valor de verdade para você.

Se você tem uma coleção de livros, por exemplo, não precisa se desfazer deles só porque são muitos. Eles te trazem boas lembranças das histórias que contém, são presentes, algo que você gosta de emprestar aos amigos para ter uma boa conversa depois que eles lerem ou, simplesmente, deixam o cômodo mais bonito.

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Essa é uma série de valores, e assim como você não precisa ter mais livros caso não queria, também não precisa ter menos.

Mas se, por acaso, alguns deles forem livros que você não gosta, ou não sabe que destino dar, porque não vender eles na Estante Virtual, ou até mesmo fazer uma doação para uma escola ou biblioteca comunitária?

Resumindo: Minimalismo não é sobre viver com menos apenas porque alguém disse que deve ser assim, isso seria apenas repetir a lógica do acúmulo e consumismo. Minimalismo é sobre encontrar o equilíbrio e viver com o necessário, nem mais, nem menos.

Conversa franca: dinheiro traz felicidade?

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Vamos ser sinceros, por mais que a gente possa falar em desapego, não ligar para o dinheiro e coisas do tipo, são pouquíssimas as pessoas que realmente não dependem de quase nada relacionado a ele – mesmo que pratiquem o minimalismo.

A maioria de nós tem – e gosta de ter – uma casa, água encanada, eletricidade, móveis, roupas, produtos de higiene e beleza, alimentos variados, computador, celular, acesso à algum meio de transporte… e tudo isso custa dinheiro em maior ou menor quantidade.

Partindo da ideia de que precisamos dessas coisas para sermos felizes, então até certo ponto, é possível dizer que, sim, o dinheiro pode comprar felicidade.

Na verdade, segundo um estudo de Angus Deaton e Daniel Kahneman, ambos vencedores do Prêmio Nobel de Economia, com base em mais de 450 mil entrevistas, a relação entre dinheiro e felicidade é visível até os US$ 75.000,00.

Com pouco mais de seis mil dólares por mês as pessoas podem ter acesso a tudo que eu descrevi acima, além de um bom plano de saúde, educação de qualidade para os filhos, acesso constante à entretenimento (cinema, teatro, shows…), e mais alguns confortos além do básico.

Acima desse valor, no entanto, as pessoas não demonstram nenhuma relação entre renda e estado emocional. Com base nesse estudo, podemos esclarecer então que o dinheiro pode comprar felicidade, até certo ponto – e esse ponto, apesar de alto, está longe do ideal de ser milionário.

Minimalismo e propósito de vida

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Uma das coisas que muitas pessoas notam quando adotam o minimalismo em suas vidas é que já não precisam de tanto dinheiro quanto antes, o que é óbvio devido à redução do consumo.

O inesperado é que muitas vezes isso abre espaço para repensar o próprio trabalho que a pessoa faz. Será que não é possível abrir mão de uma ou duas horas por dia e arcar com a redução do salário? Ou quem sabe negociar para trabalhar em casa alguns dias da semana?

É possível até mesmo economizar por alguns meses para abrir aquele negócio que você desejava desde sempre.

Apesar de não ser uma regra, é algo muito frequente que adotar o minimalismo nos leve a descobrir as coisas que realmente importam, aquelas que o dinheiro e as coisas compradas em excesso nos fizeram deixar de ver, o nosso propósito de vida!

Na prática: Adotando o minimalismo no seu dia a dia

Eu acredito que se você chegou até esse ponto do texto, tem algum interesse em adotar o minimalismo, mesmo que em pequena escala, no seu dia a dia; então agora eu vou mostrar alguns caminhos para que você consiga usar com sucesso essa habilidade.
Paciência em primeiro lugar

“Não é tão simples quanto colocar todas as suas coisas num caminhão é se livrar delas”, afirma Ryan Nicodemus, um dos autores dos livros Minimalismo: Viva uma vida de significado e Tudo que permanece e do blog theminimalists.com/

Você não precisa se cobrar ou se culpar caso ainda não consiga se livrar de tudo aquilo que não tem valor verdadeiro na sua vida. Tenha paciência com seu desenvolvimento, e foque em estar sempre avançando, não importa a velocidade.

Desafie-se

Uma das maneiras que muitas pessoas usam para reduzir a quantidade de coisas irrelevantes em suas vidas é se desafiar, como descartar um objeto por dia durante 30 dias, por exemplo.

Parece pouco, mas é um começo positivo, e além de já eliminar 30 coisas, em alguns dias você vai naturalmente se desfazer de grupos maiores.

Quer dar uma carga extra no seu desafio? Encontre alguém para competir; envie esse post para alguém que pode se interessar pelo minimalismo e chame ele ou ela para uma competição do tipo quem descarta mais objetos em uma semana.

Adote uma causa

Outro incentivo para diminuir o acúmulo é encontrar uma causa para apadrinhar. Pode ser uma ONG, uma igreja, uma biblioteca ou escola pública, enfim. Comprometa-se com as pessoas que fazem parte dessa causa à fazer doações constantes.

Isso vai te dar um ótimo motivo para abrir mão com mais facilidade daquele livro que você nunca mais vai ler, ou aquela roupa que não veste há dois anos.

O que os olhos não veem…

Está na dúvida sobre alguns objetos serem ou não importantes? É normal se sentir assim, pois no meio de tantas coisas que possuímos, nem todas parecem ter valor tão óbvio, mas ainda sentimos que elas podem nos acrescentar algo.

Nesse caso, uma dica simples é esconder esses objetos por pelo menos um mês – esconder de verdade, em um lugar onde você simplesmente não vai ver esses objetos.

Os primeiros dias podem ser uma armadilha, já que só por estar fazendo esse teste, sua mente pode encontrar motivos para que você use o objeto, mesmo que você esteja há semanas ou meses sem precisar dele – tente resistir à essa primeira fase.

Daí por diante, a regra é simples – se no final dos 30 dias você perceber que não sentiu falta, ou até mesmo esqueceu do que estava escondido, é hora de se livrar dele; mas se tiver sentido muita dificuldade em passar esse tempo ser usar o objeto, pode ficar com ele sem culpa!

Consistência

Caso você tenha mesmo decidido seguir o minimalismo, mesmo que parcialmente, não basta reduzir a quantidade de coisas que você guarda, é preciso ter consistência e repensar aquilo que você compra.

Algumas pessoas acabam passando por um processo interessante, como descartaram uma boa quantidade objetos, acreditam que pode fazer algumas compras para compensar.

“Ah, eu acabei de doar 20 peças de roupa, que mal tem em comprar só uma?”

Isso é só mais uma variação de compra por impulso. Lembre-se que minimalismo não é sobre a quantidade de bens que você possui, é sobre o valor que eles tem para você.

Essa peça que você vai comprar para “compensar” as que abriu mão é realmente algo que você precisa, ou é só uma forma de preencher um certo vazio deixado pelas que foram embora?

48 horas: A prova decisiva

O impulso de comprar (infelizmente) não vai desaparecer de uma hora para outra, apenas porque você leu esse post, ou teve acesso a qualquer outro conteúdo sobre minimalismo.

Ainda acontecerá de um objeto na vitrine chamar sua atenção, ou algo parecer necessário só por causa de uma promoção de última hora.

Nesses casos, a prova decisiva que você pode aplicar é esperar cerca de dois dias antes de fazer a compra. Depois desse tempo, você ainda sente que precisa do produto? Se sim, então sinta-se livre para comprá-lo.

Essa regra não tem 100% de precisão, algumas vezes você ainda pode aplicar ela, decidir que deve fazer a compra, e depois de um tempo perceber que o objeto nem era tão importante; mas ela funciona na maioria dos casos e muitas vezes vai te mostrar que o que parecia tão necessário era apenas um impulso momentâneo.

Como saber o que realmente tem valor?

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Uma das grandes dificuldades em adotar o minimalismo é que algumas das coisas que você possui realmente trazem valor para você, mas no meio de tantas posses irrelevantes, você simplesmente não sabe quais são as importantes.

A quantidade de ruído causada por tudo que é irrelevante acaba ofuscado a sua visão sobre o que é essencial.

Mais uma vez, a resposta é simples: não se culpe, não se apresse, seja paciente. Como em qualquer decisão de mudança que você toma, os estímulos que estão te fazendo decidir adotar um novo modelo geralmente estão em menor quantidade que aqueles te levando à manter seu estado atual.

Como eu falei no começo do post, mais de R$ 10 bilhões são gastos em publicidade no Brasil todo mês.

Todo esse valor é investido pelas empresas para estimular compras – sem falar que todas as pessoas que conhecemos também são expostas a essas mensagens, e acabam repetindo elas quando exibem seus carros, tênis ou smartphones novíssimos.

Então tudo bem se levar algumas semanas, meses, ou mesmo anos para você finalmente encontrar as coisas que tem valor de verdade no meio de tanta distração.

Pegue leve com você mesmo(a)!

A parte boa é que, com o tempo, as coisas que tem mesmo algum valor acabam proporcionando ainda mais benefícios quando você se livra do resto, já que esse resto – normalmente – não acrescenta nada além de distração.

É como naquele momento em que sua internet fica lenta e você fecha todos aqueles oito vídeos carregando em outras abas, para acelerar o que você quer assistir primeiro.

Minimalismo como ferramenta de produtividade?

Esse é um tópico extra para quem quer aplicar os princípios do minimalismo ao seu trabalho, descartando tarefas irrelevantes para se concentrar naquelas que realmente tem valor.

Sabe aquela famosa relação que diz que 80% dos resultado partem de 20% dos esforços? É isso que nós vamos buscar.

Claro que a importância não está nos números, a relação pode ser 80/10, 70/30, 90/50, e por aí vai; a questão é encontrar qual parcela do seu trabalho realmente gera valor para o mundo, diminuir ou eliminar o resto, e multiplicar isto.

Imagine descobrir que em 3h ou 4h de trabalho por semana você produz mais valor do que em todo o resto? Você poderia descartar uma carga enorme de atividades improdutivas, e expandir as tarefas de impacto para esse tempo vazio.

Acredite, se você acha que o seu chefe não vai permitir isso, encontre uma forma de demonstrar como essa mudança vai gerar valor para ele, e você vai sentir a guarda dele se abrir para uma negociação.

Muitas pessoas já trabalham dois ou três dias da semana em casa. A empresa corta custos com vale-transporte, vale-refeição, eletricidade, café… e o funcionário aumenta sua produtividade enquanto mantém o conforto de casa, evitando o trânsito e as distrações causadas por conversas de corredor, telefones tocando em toda parte, etc.

As dicas são as mesmas que eu dei sobre o minimalismo com objetos e compras; tenha paciência com o seu tempo, desafie-se, esconda (experimente passar alguns dias sem fazer uma tarefa para descobrir se o mundo acaba mesmo), seja consistente.


Você é do tipo que quer fazer mais atividades em menos tempo? Acredito que você vai gostar de conhecer esses 9 hacks para dobrar sua energia e conquistar os resultados que deseja, um conteúdo com oito truques para hackear seu corpo e dobrar seu nível de energia em alguns minutos.

Conclusão

Eu espero que esse post te convença a tentar usar o minimalismo como uma forma de se conectar mais profundamente com o que é importante, eliminando o ruído causado por uma infinidade de coisas e mais coisas se acumulando por toda parte.

Posses são prisões para a nossa mente, temos medo de perder aquilo que é tão “nosso”, mesmo que seja um objeto qualquer sem nenhum valor real.

Compartilhe esse post com uma pessoa que possa adotar o minimalismo na vida dela, e aproveite para desafiá-la sobre quem se desprende de mais coisas em uma semana, ou um mês.

Caso você ainda não tenha decidido que isso é para você, não tem problema, cada pessoa tem um ritmo próprio de decisão. Continue pesquisando e se informando sobre o minimalismo, e outras formas de lidar com a vida.

Obrigado por ter me acompanhado até aqui, o espaço dos comentários agora é seu, deixe a sua opinião sobre o minimalismo – você pretende dar uma chance à ele? Já é praticante? Ou achou que isso tudo não faz o menor sentido?

Me conte nos comentários, eu quero muito saber a sua opinião e continuar essa conversa!

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Samuel de Almeida, DESEN.life

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