Sua perspectiva sobre os fatos importa mais que os próprios fatos?

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Quanto a perspectiva sobre os acontecimentos do passado pode influenciar o seu presente? É algo que a ciência e boa parte das religiões tenta descobrir há muito tempo. Felizmente, estamos cada vez mais perto de uma resposta definitiva!

Um soldado que teve seu veículo explodido no Iraque, e acordou cinco dias depois na Alemanha, com o braço e a perna esquerda amputados, passou por meses de cirurgias antes de voltar pra casa; tornou-se depressivo e alcoólatra.

Um escritor best-seller, eleito com o melhor físico do mundo em 2014, atleta de alto nível em maratonas com obstáculos, e terceiro colocado no programa Dancing With The Stars.

São duas histórias completamente opostas, mas com o mesmo protagonista. Noah Galloway quase perdeu a vida em combate e, mesmo sem um braço e uma perna, conquistou todos esses resultados.

Qual é a diferença entre as pessoas que, apesar de passar por grandes tragédias, continuam lutando e se superando, e as que não conseguem se levantar novamente?

A resposta pode estar na perspectiva com que olhamos para o passado, e entender isso pode te ajudar a lidar com momentos difíceis, como uma demissão, a perda de um familiar ou um problema grave de saúde, por exemplo.

Foto: Layana Leonardo

Não somos mais do que as histórias que podemos contar

A primeira coisa que precisamos saber é que cérebros humanos operam através de narrativas, e conseguem guardar muito melhor uma história do que uma sequência de estatísticas, por exemplo.

Além disso, estamos o tempo inteiro criando perspectivas sobre os fatos que nos acontecem, e que nos são contados – verdade, mentira, alegre, triste, bonito, feio, e uma série de outros significados.

Essa série de interpretações que atribuímos aos acontecimentos segue, em variados graus, na direção do otimismo ou do pessimismo.

A diferença entre o otimista e o pessimista não é que um pensa em coisas boas e o outro em coisas ruins; pois todos nós, normalmente, temos as duas perspectivas disponíveis em nossa mente.

Vamos usar um exemplo cotidiano, como alguém que é demitido e precisa dar a notícia à sua família, para entender essa relação.

A quantidade de pensamentos que se passa na cabeça de alguém vivendo essa experiência é quase infinita, como:

  • Eu fracassei com eles, e não consigo sustentá-los
  • Nem devia ter vindo pra casa
  • Eu poderia ter demorado mais pra contar
  • Que bom que eu tenho a minha família para me apoiar
  • Agora posso buscar um trabalho em home office e passar mais tempo com eles

 

Como eu disse, otimistas e pessimistas têm os dois lados disponíveis, e escutam todos os pensamentos, positivos e negativos.

O que diferencia as duas visões é o foco – quais desses pensamentos vão receber atenção, e quais vão ser descartados?

Em quais deles iremos acreditar completamente, e para quais iremos encontrar uma resposta?

Outro exemplo interessante se trata de quando duas pessoas vivem a mesma situação, ao mesmo tempo, mas uma conta a história de forma positiva, enquanto a outra só consegue falar sobre o que deu errado.

Ambas tiveram acesso aos mesmos fatos, no mesmo instante, registraram as mesmas informações, mas criaram uma perspectiva diferente por focar nos aspectos bons ou ruins dos acontecimentos.

A perspectiva de uma separação

Todo casal tem algumas histórias para contar, sobre como se conheceram, quais os motivos que mais levam à discussões, as viagens que fizeram.

E de acordo com o Dr. John Gottman, professor emérito de psicologia na Universidade de Washington, e autor de mais de 40 livros e 190 artigos, é possível prever a estabilidade ou separação do casal pela forma como essas histórias são contadas.

Enquanto algumas pessoas falam com alegria sobre o que passaram com a outra, como superaram as dificuldades e as brigas e conquistaram o que tem hoje; outras contam essas histórias com desânimo, e falam muito mais sobre o que o par faz de errado (ou como eles próprios nunca fazem nada de errado) do que sobre as conquistas do casal.

Ao longo de três estudos nos anos 90 e 2000, Gottman e sua equipe conseguiram calcular, tendo uma taxa impressionante de acertos variando de 87% a 94% entre os estudos, que os casais com perspectiva positiva sobre a relação permaneceriam juntos, enquanto os demais chegariam ao divórcio.

O interessante é que os casais que continuaram unidos, em geral, não tinham menos discussões ou dificuldades que os outros; mas eram capazes de isolar esses episódios, enquanto aqueles que se separavam viam a relação inteira como um problema.

Tudo que você já falou ou escutou na vida foi editado

Quando você conta um filme, não diz tudo que aconteceu nas duas horas, apenas o que é mais importante para que a outra pessoa tenha uma noção sobre a história.

Matrix começa com uma ligação entre uma mulher e um homem falando sobre alguém desconhecido, e aparece um monte de códigos em verde na tela, e a câmera vai dando zoom neles até atravessar a tela, e a mulher acha que está sendo observada, e…

Empacotar” as informações dessa maneira é fundamental, já que temos uma quantidade definida de horas por dia, e não podemos gastar todas elas falando sobre o que já passou. Normalmente, esses resumos não nos fazem perder muita coisa.

O problema é que, em alguns casos,  escolhemos de forma inconsciente quais histórias sobre nós mesmos e sobre os outros irão passar pelo filtro da atenção.

Você pode se considerar uma pessoa boa ou ruim, produtiva ou preguiçosa, agradável ou chata – mas a verdade é que, com raras exceções, você não é uma coisa ou outra o tempo inteiro.

Em alguns dias, você acorda de bom humor, cumprimenta à todos, ajuda qualquer um que pede precise, faz elogios. Em outros, por algum motivo, seu dia não começa bem, você passa de cara fechada em toda parte e pode até acabar perdendo a cabeça com alguém.

Tanto numa situação quanto na outra, você é a mesma pessoa.

Quando você fala que é chato, não leva em consideração que talvez muitas pessoas gostem da sua companhia; ou quando fala que é agradável, deixa fora da conta os dias em que uma nuvem negra flutua acima de sua cabeça.

É tudo uma questão de perspectiva!

E sabe qual é a melhor, mas também a pior parte de contarmos histórias editadas para nós mesmos?

Nossas ações seguem a perspectiva que temos sobre nós mesmos

Esse é o motivo mais importante para ter atenção ao que a vozinha dentro da sua cabeça fala. Se ela vive dizendo que você é preguiçoso, é possível que você tenha as ações de um preguiçoso.

O mesmo vale quando ela fala constantemente que você é uma pessoa ativa – suas ações serão as de alguém ativo.

Isso acontece porque o nosso cérebro precisa de consistência entre a perspectiva e as ações, portanto quanto mais ele foca num pensamento, mais irá tentar alinhar os fatos para que eles façam sentido.

Felizmente, isso não significa que você estará para sempre num ciclo de histórias e ações repetitivos caso eles estejam te levando para longe dos resultados que você quer conquistar.

É possível manipular essa sequência para criar novas perspectivas – e novas ações.

Para mudar ações, mude as histórias que as provocam

Ações são conduzidas por pensamentos, e – apesar de haver quem discorde – eu acredito que os seus pensamentos sempre irão se transformar antes das ações.

Para fazer algo diferente é necessário que haja pelo menos um “sussurro” dessa vozinha que nos conta as histórias, apontando em uma direção diferente.

A melhor maneira que eu encontrei para conseguir manipular essa voz e fazer ela trabalhar à meu favor é insistir em fazer ela conversar com pessoas que estão tendo as ações que eu desejo ter.

Existe uma tonelada de conteúdo sobre praticamente qualquer assunto, e hoje em dia é possível acessar tudo isso com uma facilidade incrível: Livros, vídeos no YouTube, redes sociais, grupos, blogs, artigos em revistas… estão todos à disposição.

Ainda que eu não consiga conversar diretamente com as pessoas, eu posso expor o meu cérebro ao que elas estão falando através de todos esses meios, ao longo de horas.

Se você não tem tempo para ler muita coisa, foque em ouvir podcasts, entrevistas, e até mesmo o áudio dos vídeos delas no YouTube.

No caminho para o trabalho ou a faculdade, voltando pra casa, durante o banho, preparando uma refeição ou fazendo exercícios; as oportunidades para escutar conteúdos transformadores são quase ilimitadas.

Comece pequeno, e avance rápido

Mudar a sua perspectiva completa é uma missão que requer tempo e paciência; não é sobre acordar um dia e dizer “hoje eu sou uma nova pessoa” esperando que todos os pensamentos limitantes nunca mais apareçam.

É sobre acabar com eles um por um.

Foque em uma pequena atitude que você pode tomar e se comprometa com ela dia após dia. Aqui vão alguns exemplos:

Se você quer perder peso, mas acredita que não é capaz de comer de forma saudável, comprometa-se com uma única fruta por dia. A sua história agora vai ser “eu não consigo comer bem o resto do dia, mas pelo menos estou comendo essa fruta”.

Caso queira escrever um livro, mas a voz interna fala que você é preguiçoso, foque em escrever uma página por dia – boa ou ruim. Agora a história será “eu tenho preguiça de escrever mais do que isso, mas estou cumprindo uma página por dia”.

A melhor parte é que quando você consegue se comprometer por algumas semanas com essa pequena mudança, seu cérebro vai começar a pedir mais. A narrativa sólida em que ele acreditou por anos de repente apresentou uma falha.

É nessa falha que você deve agir, acrescentando uma pequena mudança após a outra – avançando rápido, sem dar brecha para que a história original se recomponha.

O sucesso do dia para a noite pode demorar semanas (ou mais)

Uma atitude muito comum das pessoas que precisam de uma grande mudança em suas vidas, seja na alimentação, trabalho, relacionamentos… é se comprometer com uma transformação total sem pensar em cada aspecto único que precisa mudar.

O problema é que compromissos muito amplos são também muito fracos, na maioria das vezes.

Eu não tinha motivação, mas agora vou me dedicar à esse projeto” precisa ser dividido em uma história mais completa, com detalhes sobre o que te motiva, em quais horas do dia você pretende se dedicar mais, quais comportamentos precisam ser evitados pois te levam a ficar desmotivado, etc.

Quando vemos de fora, a transformação na vida de alguém sempre aparenta um único grande salto; mas quem olha de perto é capaz de perceber uma série de mudanças individuais que se encadeiam e fortalecem uma à outra.

Conclusão

Espero que você tenha gostado desse post, e que ele te ajude a mudar a perspectiva que te leva às ações negativas que te fazem ficar no mesmo lugar, sem se desenvolver.

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